São João da Chapada - Folclore e Tradições



A  localidade sede do distrito de São João da Chapada foi fundada em 1830, quando surgiram as primeiras choupanas à margem esquerda do córrego São João, no alto de uma chapada a mais de 1.000m de altitude, em terrenos que foram antes propriedade do comendador João Fernandes de Oliveira e de Ana Pinto de Andrade. Sua origem se prende à descoberta da lavra diamantífera de Pratinha, nas proximidades, que atraiu e fixou inúmeras pessoas na área. Em 1861, o antigo Arraial da Chapada foi elevado a distrito por lei nº 1103 de 16 de setembro, e nove anos depois, a condição de freguesia, passando então a ser denominado São João da Chapada.

 

Segundo consta de texto publicado na Revista do Arquivo Público Mineiro, em 1899, o arraial possuía naquele ano 150 casas térreas dividindo-se em 3 ruas longitudinais, 2 transversais ao entrar, 1 sinuosa ao sair, alguns becos, uma praça, ocupando tudo isso, inclusive a igreja, uma área de 500 metros sobre 200.

 

“Pertence ao distrito um pequeno povoado também chamado Chapada, cuja origem remonta ao início do século XVIII, pois consta do Mapa de Demarcação Diamantina, datado de 1750. Já se encontrava, porém, totalmente estagnado em 1817, quando Saint Hilaire, o descreveu como um reduzido aglomerado de cerca de trinta miseráveis choupanas, construídas desordenadamente...”.

 

A rua Direita constitui o grande eixo ordenador do espaço de São João da Chapada. Outras duas ruas, situadas paralelamente e à pequena distância da primeira, remetem aos caminhos abertos por grupos de tropeiros. Tais ruas confluem para o mesmo ponto no final da rua Direita. As demais vias partem de pontos nodais situados no largo da matriz de Santo Antônio, na capela do Bonfim e na praça do comércio. A ligação entre esses eixos paralelos é feita através de becos estreitos, e meia dúzia de travessas mais largas. Dois núcleos principais são formados pela matriz e pela capela, que polarizam o adensamento da região. O lugar denominado Quartéis do Indaiá forma outro núcleo, ocupado de maneira desordenada por pouco mais de vinte casas de aparência muito simples.

 

São João da Chapada está localizado a 27 km de Diamantina, situado no ponto mais alto do divisor de águas das bacias do rio Pardo, afluente do rio das Velhas, e do ribeirão Caeté-mirim, tributário do Jequitinhonha. De acordo com Moreira Pinto, São João da Chapada talvez seja o ponto habitado mais elevado do Brasil.

 

 

Povoado de Quartel de Indaiá

 

Circudando o sítio hoje ocupado por S. João da Chapada, havia seis quilombos famosos: Caiambolas, Maquemba, um perto do córrego perto da Formiga, o quilombo de Antônio Moange, na Valvina, perto do Morro do Macumba, um na Madalena e outro nos terrenos da fazenda de Bezerra.

 

Razões geográficas que a tradição confirma induzem a crer que, principalmente dos dois primeiros, procede a população de Quartel de Indaiá, curioso povoado a nove quilômetros de São João da Chapada.

 

Longo tempo viveu o lugar em estado de quase selvageria. Hoje tem uma escola. Continua, porém, composta quase exclusivamente de negros a sua população. Ali se conservam ainda bem as tradições locais, já em desuso em São João da Chapada.

 

No conjunto arquitetônico destaca-se no cenário urbano de São João da Chapada, a matriz de Santo Antônio, com suas grandes torres partindo do corpo da igreja, e a capela do Bonfim, que segue o mesmo estilo das construções de torre central na região de Diamantina, exceto pelo avanço da torre em relação à capela-mor, colocando-se quase como um corpo independente do edifício. O casario da rua Direita também segue, em grande parte, as técnicas e métodos construtivos que eram empregados nos outros distritos diamantinos, resultando num conjunto arquitetônico estilisticamente homogêneo. As residências são, na maioria, de um só pavimento, construídas geralmente em pau-apique ou adobe, sendo mais baixas que as encontradas na Sede, e possuindo telhado de quatro águas com telhas do tipo capa e bica.

 

Casas retangulares, de paredes de barro e cobertas de colmo é pura e simplesmente a descrição das cafuas de Quartel. Uma porta estreita e uma ou duas janelas muito pequenas constituem os únicos ventiladores. É assim a cubata de Angola. E as mesmas palavras servem para descrever as cafuas do Quartel do Indaiá, cobertas de capim ou de palmas de coqueiro. Os inúmeros coqueiros de Indaiá que crescem no Quartel não serviram somente para dar nome ao lugar. É plausível que os quilombolas ali se fixassem pela oportunidade rara de reproduzir, desde o tipo de casa, seu modo de viver na terra de origem. As cafuas são cobertas com palmas dos próprios coqueiros, as quais servem também, em alguns casos, na construção das paredes e para a cercadura de uma área em frente à habitação.

 

Há anos atrás um trecho do arraial de S. João da Chapada, ocupado principalmente por negros, dava a ver representantes desses tipos de cafuas. E é curioso notar que existem as mesmas casinhas apenas cobertas de telha, conservando-se no resto o mesmo estilo. É mais uma característica que atesta a importância do elemento negro na população local.

 

As manifestações culturais do distrito remetem as tradições mineiras, como a Banda de Música Santa Cecília: organizada em 1902, é uma sociedade civil de direito privado, sem fins lucrativos, com autonomia administrativa e financeira, com sede em São João da Chapada. Mantêm uma escola para ensino musical com instrumentos de sopro e percussão, formando instrumentistas atendendo às autoridades do Município nas programações cívicas, eventos artísticos, culturais, religiosos, populares, além de apresentações em outras localidades.

 

Outra banda de musica local é a Corporação Musical Juventude São Joanense, que foi criada em 07 de agosto de 2002, sob a responsabilidade do professor de música e regente Sr. José de Jesus Melo e colaboradores. Trabalha com cerca de 184 jovens divididos em quatro turnos, com intuito de integração dos jovens à sociedade através da ocupação artística musical.

 

A tradicional Folia de Reis, é uma das expressões culturais mais antigas do distrito, juntamente com as apresentações do grupo acontecem na época em que saem a folia, os moradores prepara atividades como oficinas de pratos típicos e cantos e danças de Congado, como forma de preservação de sua cultura. O grupo de Chula é mais uma dessas tradições enraizadas nas comunidades de origens africanas. O grupo está fortalecido e atualmente faz apresentações também fora do município.

 

A produção artesanal apesar de reduzida, tem o intuito de desenvolvimento da cidadania e inclusão social, trazendo a fabricação de produtos tais como peneira de taquara e farinha.

 

A comunidade apresenta como principais festividades, as homenagens a Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora de Santana e São Vicente de Paula, que ocorrem no mês de julho. Nas celebrações são praticas danças como a chula – utiliza-se o violão, sanfona, pandeiro e caixa que são tocados à medida que os versos são entoados. Tem-se na prática a disputa de versos fazendo em alguns momentos o uso de palavras de origem bantu -, lundum de pau - No Lundum de Pau ocorre o batuque de pau, as caixas ficam batendo, usa-se o violão, viola, cavaquinho, pandeiro, sanfona.

 

Na Comunidade Quartel do Indaiá, encontra-se os Vissungos (são cantos ritualísticos em línguas e de heranças africanas) que foram incorporados ao cotidiano da escravaria, e eram entoados para aliviar os momentos extremamente árduos da mineração e dos funerais. Estes cantos tiveram origem nos garimpos da região. Composto por metáforas era incompreendido pelos brancos, acompanhavam o trabalho nas minas e expressavam religiosidade, saudade ou sofrimento. Chama a atenção o fato de somente os moradores mais velhos saberem entoar os antigos vissungos, o que evidencia uma preocupação local quanto à perda gradativa de elementos culturais na formação da identidade dos jovens em relação à comunidade quilombola, já que estes jovens estão se deslocando para outros distritos saindo então de seu local de origem em busca de oportunidades de educação e trabalho.

 

(Referências: www.diamantina.com.br )